Uma loja pequena, rosa, e um clube que ninguém chamou assim

A primeira sala no prédio da Rua São Manoel com a Protásio Alves era pequena. Funcional. E já era rosa. Não por estratégia. Por convicção. Em um mercado tradicionalmente masculino, rígido e sem cor, escolhemos pintar a loja de rosa e colocar todos ali dentro — inclusive os meninos. Corajosamente, sem pedir licença, sem explicar demais. O resultado foi imediato. A loja deixou de ser apenas um lugar de compra e virou ponto de encontro. Estudantes iam até lá para experimentar jalecos, mas também para conversar, se reconhecer, trocar histórias. Muitas vezes, para comer balas espalhadas pelo balcão. Para ficar. A sacola tinha um coração. E era cobiçada. Circular pela faculdade com aquela sacola era quase um sinal de pertencimento. Como se, silenciosamente, existisse um clube — sem regras escritas, sem discurso, sem exclusividade forçada. Um clube feito de afinidade, cuidado e reconhecimento mútuo. Foi nesse contexto que uma frase começou a aparecer com mais força. Não como slogan formal, mas como tentativa de dar nome a algo que já acontecia todos os dias: jalecos feitos com amor. O amor estava no tempo dedicado a cada pessoa. No cuidado com o corte. Na escolha do tecido. Na paciência do ajuste. No rigor técnico que não aceitava atalhos. A personalização sempre existiu. O que mudou foi a percepção externa. Para quem entrava naquela loja rosa, ficava evidente que aquele trabalho não era industrial, nem apressado, nem indiferente. Era feito com amor — no sentido mais concreto da palavra. As fotos desse período mostram isso com clareza. Não há encenação. Há vida acontecendo. Gente sentada, conversando, esperando prova, rindo, compartilhando tempo. Antes de qualquer reposicionamento, antes de qualquer novo nome, antes de qualquer discurso sofisticado, já estava ali o núcleo de tudo o que viria depois: técnica, artesania e vínculo humano. O slogan apenas colocou palavras onde já existia prática.

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