Quando os jalecos existiam, mas não acompanhavam quem os usava
Os jalecos sempre estiveram ali.
Eles existiam, sim — pendurados em cabides pouco gentis, feitos de tecidos que amassavam só de olhar, com cortes retos, duros, masculinizados. Eram peças pensadas para funções genéricas, não para pessoas reais. Muito menos para mulheres que passavam o dia inteiro trabalhando, estudando, atendendo, se movendo.
Em Porto Alegre, nos anos 90, quem precisava de um jaleco encontrava opções antiquadas. Tecidos quentes, modelagens sem forma, botões grandes demais, acabamentos ásperos. Jalecos feitos para durar pouco no corpo e muito pouco na memória. Funcionavam no papel, mas falhavam no uso diário.
Foi nesse cenário que tudo começou — não por desejo de criar algo novo, mas por necessidade de fazer melhor.
A primeira mudança aconteceu dentro de casa. Nossa mãe costurava. Costurava bem. E foi a partir de uma demanda concreta, pessoal, quase doméstica, que ela começou a olhar para o jaleco como peça técnica: algo que precisava proteger, mas também permitir movimento; algo que precisava ser resistente, mas não rígido; algo que precisava existir no corpo com mais inteligência.
Não se tratava de moda. Ainda não.
Tratava-se de ajuste, tecido, forma, conforto.
Enquanto os jalecos disponíveis seguiam um padrão antigo, começava ali um olhar diferente — um olhar artesanal, atento, silencioso. Um olhar que não negava o que existia, mas percebia claramente o que faltava.
Esse foi o ponto de partida da loja uniform: não uma ruptura barulhenta, mas um refinamento paciente. Um processo lento de observação e prática, feito à mão, peça por peça, quando jaleco ainda era apenas uniforme — e não identidade.
O resto da história vem depois.
Mas tudo começa aqui:
quando os jalecos existiam, e alguém decidiu cuidar melhor deles.
Este texto faz parte de uma série de registros históricos.