Quando o trabalho saiu de casa e encontrou o mundo

O trabalho já existia antes de ganhar nome. Mas chega um momento em que ele precisa circular. Foi quando a vida acadêmica entrou em cena. Em 1996, o contato com a PUC trouxe algo novo: fluxo. Pessoas diferentes, rotinas diferentes, corpos diferentes. Estudantes que passavam o dia inteiro em laboratório, em clínica, em aula prática. Gente que vestia jaleco por necessidade real, não por protocolo. E que sentia, no corpo, tudo aquilo que não funcionava. Os jalecos antiquados continuavam ali. Mas agora havia comparação. Nossa mãe, que sempre costurou, passou a atender demandas que vinham de fora de casa. Ajustes mais frequentes. Pedidos mais específicos. Não era mais apenas “fazer um jaleco”, mas entender para quem ele seria feito. Em 1997, com a entrada na Odontologia da PUC, esse contato se intensificou. As jornadas odontológicas, as feiras acadêmicas, os corredores cheios de estudantes se tornaram pontos naturais de encontro. Não havia vitrine, nem campanha, nem discurso pronto. Havia conversa. Observação. Escuta. Os pedidos começaram a se repetir — e, ao mesmo tempo, nunca eram iguais. Um tecido que amassasse menos. Uma manga que não atrapalhasse o atendimento. Uma modelagem que respeitasse o corpo feminino sem comprometer a função. Foi nesse momento que a loja uniform começou a existir de fato, ainda que sem endereço fixo. O trabalho saía de casa, mas mantinha a mesma lógica: artesanal, atento, feito à mão. Cada peça era construída como resposta direta a uma necessidade concreta. As feiras não eram palco. Eram laboratório. Ali se aprendia o que funcionava, o que precisava mudar, o que podia melhorar. O jaleco começava, pouco a pouco, a se afastar da ideia de peça genérica e a se aproximar de algo mais preciso, mais pensado, mais humano. Nada disso vinha acompanhado de grandes planos. Era trabalho que encontrava trabalho. E foi assim, de forma silenciosa e constante, que aquele fazer doméstico passou a circular entre estudantes, clínicas e corredores universitários. Sem alarde. Sem promessa. Apenas com consistência. A história ainda não falava de expansão. Mas já falava de permanência.

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