Quando o discurso ficou mais alto que o ofício

Com o tempo, começaram a surgir muitas lojas de jaleco. Cada uma com sua narrativa, seus slogans, suas promessas. Em convenções e eventos, empresários subiam ao palco para contar como haviam “inventado” o jaleco moderno. Enquanto isso, seguíamos atendendo. Cliente por cliente. Necessidade por necessidade. Entendíamos que um jaleco para quem atende em consultório não é igual a um jaleco para quem trabalha em laboratório. Que o número de botões muda o conforto. Que o tipo de tecido interfere na concentração. Que a modelagem impacta a postura. Esse conhecimento não vinha de pesquisa de mercado. Vinha de décadas de prática. O contraste ficou evidente: enquanto muitos construíam discurso, nós sustentávamos o ofício. E isso nos colocava em um lugar curioso — respeitadas localmente, copiadas silenciosamente, mas raramente citadas. Não por falta de qualidade. Mas por excesso de chão. A loja uniform sempre foi mais fábrica do que palco. Mais mesa de corte do que vitrine conceitual. E, por muito tempo, isso nos pareceu suficiente. Até que a vida começou a pedir outra coisa.

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