A loja dos sonhos, por um tempo
Depois de muitos anos na Rua São Manoel, e após a experiência da primeira sala pequena no prédio, surgiu a possibilidade de ocupar um espaço maior. Ainda no mesmo endereço, na esquina da Rua São Manoel com a Protásio Alves, abrimos aquela que, por muito tempo, imaginamos como a loja ideal.
O espaço existiu. Foi real. Funcionou.
Era uma loja ampla, que permitia respirar, receber melhor, organizar processos e dar visibilidade a tudo aquilo que sempre fizemos com rigor técnico e cuidado artesanal. Por alguns anos, aquele lugar foi o endereço da loja uniform.
O caminho até ali não foi simples. Contratamos um empreiteiro para a reforma. O plano era simples: adaptar o espaço, respeitar a funcionalidade, manter a identidade. Mas o que deveria ser apenas uma etapa prática virou um revés profundo. A reforma não aconteceu. O empreiteiro desapareceu. O prejuízo ficou.
Foi nesse intervalo suspenso — entre o sonho e a frustração — que chamamos nosso tio, que vivia no interior e trabalhava como pintor, para nos ajudar a organizar o espaço. Mas a vida, às vezes, interrompe a narrativa sem aviso. Ele tirou a própria vida, no dia do seu aniversário.
Nada prepara uma família para isso.
Nada reorganiza facilmente o que se quebra ali.
Mesmo assim, a loja abriu. Eu, Juliana e Amanda assumimos tudo: pintamos as paredes, cuidamos de cada detalhe. Nada ali era produção em massa. Nada era genérico. Nada era apressado. O trabalho artesanal continuava, cada jaleco feito com cuidado e sob medida, cada bordado, cada debrum, cada escolha de botão.
A loja dos sonhos não foi um rompimento com o passado. Foi uma extensão dele — em escala maior, por um período específico.
Com o tempo, ficou claro que aquele formato exigia uma energia que já não fazia sentido sustentar. Não por falta de trabalho, nem de reconhecimento local, mas por uma mudança interna, silenciosa e inevitável.
O espaço foi deixado.
O ofício, não.
A loja dos sonhos cumpriu seu papel. E, mesmo breve, ela marcou o encerramento de um ciclo que havia começado muitos anos antes, com uma máquina de costura, tecidos que amassavam e a decisão de fazer diferente.